FICÇÃO E NÃO FICÇÃO


Não ficção – A vida como ela é? (???). Indubitavelmente nada é aquilo que dizemos ser, aí tudo se diz o que é a negatividade do próprio acontecimento? E se, na realidade, a vida em si não é nada demais senão uma grande monotonia, é na invenção que a narrativa dos fatos vividos que tudo ganha o seu colorido e significado. Não há não ficção que não seja já uma ficção e a realidade é apenas verdadeira somente, e somente mesmo, no momento de sua invenção, para quem está ali, presenciando o que quer que seja. A verdade é apenas um brevíssimo momento de lucidez que não escapa à sua própria ficcionalização para ser verossímil.

Ficção – Em momentos verdadeiramente decisivos a realidade pode se mostrar mais inverossímil do que as coisas inventadas. Assim, no que podemos acreditar sendo o que nos querem crer? Muito pouco podemos fazer para distinguir a realidade da não realidade quando a vida se encaminha nessa direção, pois a coisa inventada torna-se aquilo em que se acredita e a realidade vira a própria ficção, não mais do que aquilo que conseguíamos apenas conceber como uma mentira (se é que existe a verdade).

Não ficção – Na crença irreprimível de que possamos capturar algo que queiramos que seja real. Ou uma tentativa de transformar a realidade naquilo que ela não é; deturpando a verdade e tornando-a realidade. Em muitos momentos é somente nesse movimento que ela se torna vivível. Então são muitas realidades para tantas pessoas quantas hajam no nosso pequeno mundo. Querer que o mundo seja a soma das diversas realidades quantas existam é a grande dificuldade. Para mim, a realidade é o produto e não a soma de todas as realidades vivíveis.

Ficção – Porque inventar não é mentir. O sentido dado pode ser tão mais forte do que a própria coisa vivida, principalmente se quisermos fazer com que os outros creiam no que vivenciamos no dia a dia. Não que as nossas vidas sejam chatas. A realidade é que a ficção molda a coisa vivida, pois sua intensidade não é reprimida e a força criativa que move a nossa humanidade se apresenta em sua plenitude, como um verdadeiro tornado que arrasa tudo por onde passa, e não há como sair dela da mesma forma que se entrou. Buscamos a todo o momento a ficção do que é a nossa suave monotonia.

Não ficção – Porque é preciso estar atento nas peças que a vida nos apresenta. Nem toda narrativa verossímil e convincente são partes criativas de nossas invenções. Há a negatividade destruidora da realidade. Destruição não é desconstrução. Nesse sentido, Não Ficção = Desconstrução. É o que deve ser uma não ficção verdadeira: a reconstrução criativa da realidade vivida. A desconstrução responsável das ficções grosseiramente inventadas, impostamente colocadas nos lugares da própria realidade inenarrável; mas não há sentido em haver sentido na realidade.

Ficção – Porque somos humanos e é somente com ela que conseguimos viver. Não há outra maneira. O ser humano já é a invenção e ficcionalização de si próprio, na procura de tornar a narrativa de sua existência infinita e sem fim. Aí, escrevo por uma força que já não sou mais eu, senão já uma transformação do particular no geral, que pode ser qualquer um, desde que humano, que tenha uma vida e que narre uma história. “Tudo que é sólido se desmancha no ar” (!!!).

Não ficção – Como disse uma vez um comercial da televisão: quando a realidade parece ficção, está na hora de fazer documentários. Hoje parece mais imprescindível relatar que há muita ficção na não ficção de nossas vidas, que a cegueira é branca e que tudo está plastificado e sem sal. Não há invenção que se sustente sozinha. Não há ficção sem a não ficção! O absurdo está em criar a ficção sobre a ficção? Não há nunca uma resposta definitiva para tudo, mas a ficção (diga-se: a vida) que estão criando hoje está cada dia mais intragável; a criatividade, assim, é tão somente uma força destrutiva, voraz e insaciável.

Ficção – Todo momento é momento de se recriar. Todo momento precisamos resistir. “Criar é preciso, viver não é preciso”! É quando colocamos o caos em ordem, quando colocamos o que não tem sentido um significado. A palavra já é a ficção. A ficção não é o oposto da não ficção senão apenas o complemento mais saboroso que podemos degustar da não ficção. Quer dizer, não mais saboroso, mas sim a parte refinada do turbilhão que é a aparente suave monotonia de nossas vidas vividas. A ficção está na não ficção e vice versa.

Entre a Não ficção e a Ficção – Porque tudo na vida é invenção e verdade, mentira e realidade. Tudo é trama (e muitas vezes tramoia). Tudo é tecido num entrelaçamento entre o vivido e o acontecido. Porque a vida somente é vivida quando narrada, ou seja, a vida se vive quando já inventada, aumentada (nunca diminuída). E é somente quando a não ficção se invade de ficção que ela começa a ser a não ficção. Porque é somente na dialética entre uma e outra que a vida pode ganhar força e se transformar e não nos deixar eternamente naquilo que sempre queremos ser, apenas seres humanos.

About these ads

2 comentários sobre “FICÇÃO E NÃO FICÇÃO

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s